da filosofia à ficção, retratando a realidade
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publicado por santissimatrindade, em 13.08.09 às 18:02link do post | favorito

 

A noite esmorecia-se, reflectindo esguichos de luz que iluminavam os quatro quadrados de uma janela suada de borboto. Um galo canta até se esganar, entretanto vejo atravessar por entre a pálida luz um vulto esboroado e descontínuo. Uma perra farta-se de regougar e um forasteiro de ar cândido apanha as beatas que vão manando pelo chão.
Caminho passeio abaixo, e para meu pasmo, avisto numa ventana entreaberta, uma jovem de gatas, com a cara imunda a escorrer pedaços de dióspiros que esta saboreava sofregamente como porcos a chafurdar na escória, enquanto um macho lhe executa um botão rosa. …São gemidos de cadela que povoam a cidade, umas laureiam os xales, enquanto as mais artistas derramam sobre o chão vómitos de prurido burguês.
Ao passar num pátio, vejo uma matilha de catraios que atacavam com carrapitos uma miúda sardenta de cabelo às riças e purpurinas dentais, pobre menina que tanto bramia.
 Desço uma rua repleta de preservativos viscosos que decoravam o chão como se fossem pega monstros, as paredes pareciam com as dos lavabos de gentalha, mas com um toque pós-moderno decadente… Que gente! Conforme afundava na viela… Ia topando avestruzes e patetas em sintonia simbiótica, entre prazer e narcóticos, avistavam-se a vomição catapultada de um novo mundo submerso. Continuando rua abaixo, na varanda, padecia a pobre Marília, desgraçada, a sua vida era sintonia nas línguas de vadias da vizinhança. Ficou amante do cinto de cabedal que dera de presente ao marido, diariamente o sentia nas costelas … seus gritos entoavam tão intensamente, lembrando os sinos da catedral que aspiram por virgens negras.
O padeiro leva um saco de farinha ao sapateiro, este troca-o por um envelope a um engenheiro de fato esverdeado. As latas de coca cola sobressaiam na prateleira de uma confeitaria, conjugando com vulto de uma mulher ensopada e desprovida de beleza …pobre criatura… espalhava a tristeza pelo esplendor de uma avenida, um autentico acto final de tragédia grega.

-Não existem pobres! Só imbecis!
 Exclamava um sem abrigo ao roubar uma gasta senhora que passeava a sua bolsa e era arrastada pelo seu pulguento. Um polícia tenta intervir, mas é interceptado por uma carrinha que o projecta em direcção à vidraça de um restaurante derrubando o quadro de menus do dia. Isabel deixa o pingo a meio e vais cuscar a concorrência …uma mariposa dissimulada! Pois apesar do seu ar de piedade, desabotoa dois botões da camisa e arrisca sobressair à imprensa. Zaida de orelha em pé, largar o secador e pendura a cliente que se prepara para uma tarde rosada no motel com o cunhado, este e o engenheiro gargalham enquanto se drogam e vêm os vídeos íntimos dele e da cunhada.
 Pássaros passam como fuzis, mas de que fogem? Não bebi …mas sei que vi. Ahahahahah …estou sem ar …não desmaio mas é como se acumulasse camadas de dor uma a uma e não as sofresse. ...Que pavor, que paz …que tormento. E foi mesmo! Durante uns segundos deixei de sentir o corpo. Provavelmente do excesso de nicotina e outros resíduos. Tanta coisa ou nada.
Adoro rosbife de vaca, mas choro ao ver arroz de pato.
Sádico? Trágico? Ou espectador?
Tudo circula e transmuta em seu louvor!
Tudo em torno de perdigueiros que se escoam no mato.
Para assingelar,  basta coçar a vista,  que lhe caia a casa abaixo, quero lá saber!
 É como se nada tivesse acontecido.

Este texto é uma homenagem a Bettie Page .

 

Texto e ilustração: Aurélia Maia

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